Em 2014, parti para uma viagem profunda e inesquecível de 6 seis semanas no Nepal. Cheguei lá sozinha às vésperas de comemorar meus 32 anos. No meio da estadia tive a companhia de um grupo de escritores internacionais, e no fim éramos uma dupla, eu e uma amiga. Durante as próximas semanas, vou publicar uma sequência de séries fotográficas dessa viagem ao teto do mundo. A maioria delas feita em formato 120mm, algumas em 35mm.
Essa semana começo com a vida no entorno de Boudhanath Stupa, o templo budista mais importante do mundo fora do Tibete e principal destinação de budistas de todas as partes –dado que o acesso Lhasa é quase impossível. Do quarto onde me hospedei, testemunhei o movimento ininterrupto em volta do templo, que só pode ser feito no sentido horário. Cada volta em torno da estupa é uma volta em torno do mundo. Há quem ande, há quem o faça em prostrações, repetidas à exaustão e iniciadas no meio da madrugada. No ar, o cheiro permanente de incensos, assim como o som de sinos e cânticos monásticos budistas entoados pelos numerosos grupos de estudantes do budismo que passam por ali todos os dias, a todas as horas o dia e da noite. O amarelo e o carmim as cores dominantes da multidão.
Além dos monges de várias idades e múltiplos mosteiros ali próximo e também dos milhares de fiéis que se movem como um cardume em torno do axis mundi de Boudha, ali, como em qualquer lugar, pulsa também uma vida cotidiana e ordinária. Tem feira, gente indo trabalhar, vacas, cachorros, crianças, lojas de bugingangas, malandros espertos esperando para extorquir algum turista inocente e o mercado que gira em torno da fé.
Cento e oito cilindros de madeira estão dispostos nas paredes externas da estupa, e os fiéis caminham enquanto os botam para girar com as mãos. Não sei quantificar quantas dezenas de vezes dei a volta na estupa, muitas delas com a intenção de fazê-lo e de trazer a mudança que a vida sempre há de trazer, mas outras tantas apenas porque queria ir comprar um café logo ao lado de onde me hospedava mas não podia andar para a direita: era preciso dar a volta inteirinha para ir no estabelecimento ao lado.
Até o fim da jornada, aprenderia a enxergar aquele lugar – os movimentos, os gestos e as intenções, tanta gente projetando junto, pisando os mesmos paralelepípedos há milhares de anos – como um grande acelerador de karma: e funcionou para mim. Quando retornei do Nepal, minha vida sofreu uma revolução completa, uma guinada violenta, imparável e, passada a desorientação e o luto, maravilhosa. Não há como separar a estadia em Boudhanath do resto da minha vida.
E na próxima semana, a série nepalesa continua.
Para ouvir: além das fotografias, essa viagem também rendeu esse podcast, “A primitive at heart” (em inglês), com Dot Fisher-Smith, minha musa octogenária na época (hoje, quase centenária).
Maria Bitarello é artista do texto, da fotografia, do teatro e da música, e desde 2015 integra a Companhia Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona. Tem três livros lançados: “Vermelho-Terra”, “O tempo das coisas” e “Só sei que foi assim”. Site oficial: mariabitarello.com
Leia outros textos da artista:
Gaveta Azul: “Narradora: dúvida | certeza”, por Maria Bitarello
Gaveta Azul: “Vermelho-Terra”, uma coluna de Maria Bitarello
Gaveta Azul: “A bondade de estranhos”, uma coluna de Maria Bitarello
Gaveta Azul: “A gente está sempre saindo de casa”, por Maria Bitarello
Gaveta Azul: “Um dia na vida de uma escola primária em Bombay”, por Maria Bitarello
Gaveta Azul: “Os rostos de Varanasi e do Ganga”, por Maria Bitarello
Gaveta Azul: “Os modernistas se divertem”, por Maria Bitarello